De Sócrates às startups: Em busca do auto-conhecimento e do propósito
Filed in Empreendedorismo, 08/05/2012, 14:10
Há muito tempo entende-se que o auto-conhecimento é importante para o desenvolvimento do ser humano. Sócrates (470-399 a.C) com o “conhece-se te a ti mesmo” e sua Maiêutica, já procurava a verdade no interior do Homem como caminho para a prática do bem e da virtude. Levava seus interlocutores a duvidar de seu próprio conhecimento e, em seguida, revelava-os e levava-os a conceber, a partir de si mesmos, uma nova ideia ou opinião sobre o assunto em questão, o “parto intelectual”. E ele fazia isto por meio de perguntas, os chamados diálogos socráticos.
O tempo passou. Mas na era do Conhecimento ou das Redes em que estamos, ainda são as perguntas que movem o mundo. Não as respostas. As respostas calam, consentem, encerram, fecham questão. Refletir com frequência sobre questões como quem sou, quais os meus sonhos, o que me realiza, o que espero de mim, da vida, do mundo, quais são meus sonhos mais profundos não é fácil, mas não faz mal a ninguém. Ao contrário, abre infinitas possibilidades para o entendimento de si e do mundo e aproxima a pessoa de uma verdade mais profunda e muito particular.
“As perguntas funcionam como convites generosos à criatividade,
trazendo à tona aquilo que ainda não existe”. (Marilee Goldberg, The Art of the Question)
Especialmente para um ser em busca do aprendizado, da criação de algo inovador – que é o ser “startupeiro” – perguntar é tão ou mais importante que responder. Manter o hábito de perguntar a si mesmo, com freqüência, sobre o que te move, qual o seu propósito ao iniciar um empreendimento, quem precisa do que você quer oferecer, qual o problema que você está solucionando com seu produto… é um treino para o empreendedor e abrirá portas para um entendimento profundo e consistente de si mesmo e do negócio. Traz consciência e força ao empreendedor jovem, tornando sua visão aguçada e seu potencial infinito.
Foi isto que percebi ao longo dos últimos anos atuando próxima a empreendedores de base tecnológica nas áreas de biotecnologia, saúde, química, tecnologia de informação, negócios sustentáveis… Seja qual for o motivo pessoal e existencial que os motiva a empreender, existe algo que os une: a busca de realização. Seja ela traduzida por reconhecimento, retorno financeiro, capacidade de influenciar, orgulho de ser pioneiro, ou pela vontade de resolver um problema da sociedade e do mercado como forma de mudar um pouco o mundo a sua volta. O brilho nos olhos de cada jovem empreendedor que conheci não tem preço e se deve à busca pela realização de um propósito.

Eles podem descobrir daqui a algum tempo que querem mesmo é fazer um concurso público ou trabalhar para grandes empresas? Sim. Porque não? O ser humano é complexo e imprevisível. Mas arrisco um palpite, a partir do que vivi nos últimos anos: a escolha por empreender é uma escolha quase sem volta. Caso contrário, fica sempre aquele gostinho de quero mais e uma pulga atrás da orelha, ou melhor, um grilo falante gritando: “assim que eu puder, vou levar adiante aquela ideia, aquele projeto… ai que vontade de sentir aquela adrenalina de novo! Ai que vontade de ter algo meu…”
Os empreendedores que conheci são movidos por propósitos profundos e querem mais da vida. Eles não precisam bater ponto, mas também não têm horário para parar de trabalhar. Eles querem ficar ricos, mas não têm preguiça e trabalham muito. Eles sonham alto, mas elevam as expectativas e cobranças sobre si próprios às alturas. Eles aprendem rápido, mas estudam muito e estão sempre em busca do novo. Eles trabalham atrás de computadores? Sim. Mas são ótimos de papo e de vender seu peixe em qualquer 5 minutos com os quais sejam presenteados.
Não significa que não vivam dúvidas, momentos de crise e até de incrível drama: amigos, família, parceiros e filhos cobram atenção. E o tempo e energia dedicados ao trabalho podem demorar a se converter em conforto. Eles vivem com paixão a escolha que fizeram. E me orgulho de tê-los conhecido.
Me inspirei neles e agora também entro nesta dança de empreender. Por que comparar o empreendedorismo a uma dança e não a um jogo? Porque vi no dia a dia de empreendedores nascentes que conheci no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Brasília, uma disposição muito maior em colaborar do que em competir. E a dança tem como pré-requisito um parceiro ou “partner”. Ela exige harmonia, sintonia e um compromisso rigorosíssimo com a alegria. Assisti a este fenômeno do empreendedorismo-colaborativo nas três edições do Startup Farm das quais participei. E hoje estou aqui dançando a dança de “descobrir quem sou e de que forma meu trabalho pode me ajudar a construir algo de relevância para mim e para outros como eu”. Em busca de propósito na vida e no trabalho. E não é tudo a mesma coisa?
Yunus em BH
Filed in sustentabilidade, 02/06/2011, 11:08Parte 1 – A celebridade
Estive no Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade que aconteceu aqui em Belo Horizonte nos dias 26 e 27 de maio. Queria ter participado dos dois dias do evento, mas não foi possível. Então escolhi vir na tarde do dia 26 especialmente para ver e ouvir o Yunus. Falando desta forma parece até um apelido, né? Que intimidade, quem sou eu…
Minutos antes do horário marcado para a mesa 2 – Justiça Social e Economia começar, Muhammmad Yunus entrou no auditório da Serraria Souza Pinto e sentou-se na primeira fileira, logo à frente de mim e do pessoal do HUB. Imediatamente virou-se para trás e estendeu a mão cumprimentando quem estava mais próximo. Foi um tal de “Nice to meet you!” para cá, “It´s a plaseur” para lá, que eu nunca vi. Foi um alvoroço! Ele parecia uma estrela de cinema pelo tumulto que causou. Mas me pareceu muito mais simpático e acessível que as celebridades instantâneas que pipocam diariamente por aí.
Tá certo, ele é o vencedor do Prêmio Nobel da Paz pela criação do Grameen Bank, o “Banco dos Pobres”, cuja relevância e originalidade a meu ver são indiscutíveis. Mas o que transforma um Nobel da Paz em um ídolo tão querido a ponto de ser rodeado de jovens fãs pedindo fotos, autógrafos, não pedindo abraços, soltando gritinhos?Afinal, o que o Yunus tem de diferente?
Bom, resolvi ouvir prestar bastante atenção em sua fala para entender melhor…
Parte 2 – Tudo ao contrário
Segundo Yunus, “Bangladesh é um lugar onde pessoas fazem coisas malucas” e nos contou como começou a fazer a “maluquice” de emprestar dinheiro para mulheres pobres. A história é para lá de conhecida, mas sempre vale a pena espalhar mais um pouquinho dessa semente de inovação social por aí.
Bangladesh passava por um período de muita dificuldade e pobreza. As pessoas passavam fome. Ele era professor universitário e, como parte de seu trabalho, visitava vilarejos na zona rural. Durante essas visitas, observou pessoas muito pobres pedindo pouco dinheiro a juros altos para agiotas: 42 pessoas pediam 27 dólares emprestados para um agiota. Ele pensou: “essas pessoas estão pedindo tão pouco! Eu posso emprestar para elas este valor e assim, eliminar a necessidade do agiota!
Esses primeiros empréstimos causaram “grande sensação” e ele foi aos bancos locais em busca de ajuda para essas pessoas. Mas a resposta deles foi: “É impossível!” Yunus ficou incomodado com aquela resposta e buscou entender as principais características do sistema bancário convencional: procura exclusivamente homens ricos, que vivem nas grandes cidades, contam com muitos advogados em suas folhas de pagamento e, em troca de empréstimos, pedem garantias e um histórico detalhado de seus clientes.
Ele queria um sistema bancário completo e inclusivo, que não deixasse ninguém de fora, bem diferente do convencional. Resolveu fazer “tudo ao contrário”, e assim criou o Grameen Bank, não possui advogados, não pede garantias, nem histórico dos tomadores de empréstimos. “Não estamos interessados no passado da pessoa, mas em ajudá-la a construir seu futuro”, disse Yunus.
“Queremos ser conhecidos também por ajudar os pobres a economizar na conta bancária”, afirma Yunus. E pelo jeito esse é outro mérito do Banco. Segundo ele, eles emprestam por mês 150 milhões de dólares e 200 dólares, em média, por pessoa. De onde vem o dinheiro? “Do próprio sistema. Não tomamos do governo”, afirma Yunus, enfaticamente. E mais: “Cerca de 56% do dinheiro emprestado vem do dinheiro dos tomadores de empréstimo. Os pobres poupam mais do que tomam emprestado. De fato, é o Banco quem toma dinheiro emprestado dos pobres, por isso o banco é de propriedade dos tomadores”, explica o Nobel da Paz.
Ele também relatou a criação da Grameen-Danone, que contribui para a redução da desnutrição crônica entre crianças de Bangladesh; da empresa de telefonia que oferece aparelhos para mulheres que podem cobrar pelo uso do serviço nas aldeias distantes e sem estrutura, onde vivem cerca de 85% da população de Bangladesh… Algumas de suas experiências empreendedoras entre as mais de 50 empresas já criadas por Yunus, das quais ele afirma não possui nenhuma ação.
Parte 3 – Os jovens e um modelo mental inovador
O banco também sempre estimulou que os filhos das mães tomadoras de empréstimo permanecessem na escola e o resultado disso é uma segunda geração do Grameen chegando à universidade. Eles podem usar o crédito de suas mães no Banco para concluir seus estudos e, principalmente, para iniciar seu próprio negócio. Assim, Yunus incentiva os jovens a não esperarem se formar para iniciar carreira e não bater à porta das empresas pedindo emprego, mas se tornarem geradores de emprego.
A ideia é mais ou menos a seguinte: se sua mãe analfabeta construiu um negócio, independência e toda uma vida, imagine o que você pode fazer com estudo? Yunus afirmou durante sua fala da mesa redonda que “os jovens nunca tiveram tanto poder na história da humanidade como tem hoje” e segundo o professor de Bangladesh, “isto se deve ao domínio exclusivo que eles têm sobre as tecnologias que estão transformando o mundo”.
Ele inseriu outras ideias interessantes: Há 20 anos não imaginávamos a maioria das coisas que temos e vivemos hoje. O que vai acontecer daqui a 20 anos? O possível já é. O que não imaginamos é o que será. Ele sugeriu que a gente anote em um papel o tipo de mundo que a gente quer daqui a 20 anos e assim, se comprometa para que ele seja construído hoje.
Yunus afirmou ainda: “A Teoria Econômica não nos diz que podemos fazer isso (emprestar dinheiro para os pobres, por exemplo). Ela está equivocada, interpreta seres humanos como se fossem unidimensionais, egoístas e interessados apenas em si. Mas eles são multidimensionais, pensam em si e nos outros.”
Parte 4 – É diversão!
Também participavam da Mesa Justiça Social e Economia, Elvio Gaspar (BNDES) e Aldemir Bendine (Banco do Brasil). Após a fala de Yunus, a mesa foi aberta para perguntas. Acredito que a maioria das perguntas seriam para o fundador do Banco dos Pobres, afinal ele era a estrela da tarde. Mas estranhamente, poucas perguntas chegaram à Yunus. Não sei se por despreparo da equipe que recolhia as perguntas, pela seleção de perguntas realizada pelo mediador, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, ou por algum direcionamento do Banco do Brasil, da Fundação Banco do Brasil e do BNDES, os patrocinadores do IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade.
O fato é que o pouco tempo que restou para o debate foi despendido, em sua maioria, com falas do Banco do Brasil e do BNDES sobre suas intenções e feitos em prol dos pobres e da população rural brasileira.
Uma pena! Cheguei a procurar a equipe que recebia as perguntas e questionar. Cheguei até mesmo a pedir ajuda de uma pessoa do Banco do Brasil que estava sentava à primeira fileira de cadeiras do auditório, reservada normalmente para as autoridades e organizadores. Ela conversou com um, com outro, mas não adiantou. Yunus ficou calado por mais de 30 minutos e foi embora sem responder várias perguntas pertinentes, acredito. Me informaram que as perguntas serão respondidas no blog do evento. Vou ficar de olho!
No finalzinho, ele sobre o palco, eu embaixo, consegui estender um bloco do evento para pedir um autógrafo e perguntei, no meu inglês “macarrônico”, algo do tipo: “Como consegue mudar o mundo e permanecer com esse sorriso na face?” E a resposta do Yunus foi: “It’s fun!”
Foi só o que consegui de improviso. É claro que ele não mudou o mundo, apenas lançou sementes muito férteis de um novo modelo mental que gera desenvolvimento e igualdade social. Mas o sorriso na face é impressionante mesmo. Ele parece não se abalar com o que fez e faz. Fala de forma muito natural e humilde, como se tudo fosse fácil. E manteve, durante todo o tempo que o observei, um sorriso plácido e uma serenidade acima de qualquer tumulto fanático. Lá de cima do palco, até “tchauzinho” Yunus deu para nós, a turma que primeiro o cumprimentou. E nós ficamos nos perguntando: “É com a gente mesmo?”
Reflexões:
Reflexão1: Segundo Yunus, em 2008, durante a Crise Financeira Internacional, o Grameen Bank não foi prejudicado, ao contrário, progrediu. Bancos, empresas e pessoas de classe média e alta de países ricos estavam individadas e quebradas. Ele coloca a questão: Afinal, quem merece crédito bancárrio: O rico ou o pobre?
Reflexão 2: O banco só existe porque existem pobres? Ele é fundado na pobreza e depende dela para continuar existindo? Isto está certo? Deve-se levar em conta o fato de que os dividendos do Banco são reinvestidos na própria instituição, fazendo-o girar e tornando-o sustentável. Os únicos a lucrar com os dividendos do Banco são seus próprios investidores, ou seja, os pobres.
Reflexão 3: Ainda segundo Yunus, os jovens têm hoje um poder como nunca antes tiveram. Mas eles querem utilizá-lo? Ter o poder, mas não utilizá-lo ainda é ter poder? Vejo a maioria da juventude com um comportamento apático e indiferente em relação ao próximo, ao ambiente e ao mundo a sua volta. Mas também vejo uma parcela pequena, porém crescente dessa geração, com até 30 anos de idade, se envolvendo em projetos, ações e atitudes sérias e construtivas, como é o caso de iniciativas como o HUB, a Virtu, o Atitude Brasil e muitos outros.
Reflexão 4: Qual será a sensação de fazer algo que contribua para um mundo melhor? Será mesmo “divertido”? Talvez aí esteja mais uma pista de porquê os jovens do evento queriam tanto tirar uma foto com seu ídolo? Mudar o mundo é cool?
Você conhece outras pessoas que fazem a diferença, que fazem o bem? Você acredita que estamos caminhando para a grande virada social?
Negócios Sociais: uma tendência irreversível, ainda bem!
Filed in sustentabilidade, , 11:18No último dia 18 de novembro, um universo de possibilidades se abriu. Não apenas para mim, mas para várias outras pessoas que estiveram presentes no Start Up Lab, uma iniciativa da Virtú – progresso social e ambiental, para ampliar a rede de relacionamentos e possíveis parcerias para empreendedores sociais.
Para começar, vamos esclarecer: o que são negócios sociais? Antes de chegar ao evento, li algo a respeito para me informar, mas ainda não estava claro para mim como seria possível ganhar dinheiro e melhorar a sociedade ao mesmo tempo. Fui lá para ver e conferir e não quis criar grandes expectativas, mesmo apesar das referências positivas que eu recebia dos seus fundadores.
Afinal, como a maioria das pessoas no mundo contemporâneo, não acredito em quase nada. Só os jornalistas sofrem deste mal? Ou são as instituições que vivem uma crise de credibilidade: política, igreja, esportes, polícia, escolas… Não sei. O que sei é que me surpreendi positivamente.
Encontrei pessoas com mentes muito abertas e muito interessadas em contribuir com a sociedade ao seu redor, trocar idéias, experiências e opiniões. E também grandes idéias e importantes iniciativas. Não eram apenas boas intenções e assistencialismo. Eram iniciativas concretas e bem fundamentadas. Ah! Você quer saber o que são negócios sociais? Não sou especialista no assunto, mas para mim, são aqueles capazes de fazer um mundo melhor. Simples assim.
O mais importante: descobri que dá para ser um pouco mais otimista e me permitir sonhar um mundo diferente do de agora… e bem melhor! Idealismo? Talvez. Acho que sempre fui idealista, mas estava deixando de ser e ficando bastante triste por isto, sabe? Experimente você também um pouco desta dose de esperança e acima de tudo, esta dose de atitude para a mudança e veja por você mesmo o que é possível fazer.
Empreendedorismo social é para mim, a alternativa que procurava para me engajar e poder acreditar em algo novamente, acreditar que há sim, uma nova corrente de pessoas, com outra forma de ver a vida e o mundo. E que a humanidade, ao menos uma parte dela, ainda tem salvação. Observem: isto é uma tendência e vai se cristalizar na sociedade e chegar cada vez mais perto de nós. Então, não apenas observe, deixe-se contaminar por este vírus, informe-se e, se tiver a oportunidade, envolva-se. Você ganha, todos ganham. Pode acreditar.
O Start Up Lab é uma iniciativa da Virtú e do HUB BH, criada por André Maciel, Elisa Alkimin e Virgínia Alfenas. Para saber mais, entre no site da Virtú: http://redevirtu.wordpress.com/
Sustentabilidade e Inovação: é preciso um novo modelo mental
Filed in sustentabilidade, 28/03/2011, 11:36Este artigo foi produzido durante o curso MBI (Multiplicadores Brasileiros de Inovação) realizado na Inventta – consultoria em inovação, em 2010 em co-autoria de Jamerson Matos, José Henrique, Marina Queiroz, Mateus Bernardes e Patrícia Martins.
Ele é fruto dos estudos deste grupo sobre o tema Sustentabilidade e Inovação e aborda os seguintes pontos: A evolução dos conceitos através da História; Ideologia ou Fato – nuances da discussão internacional; Responsabilidade Empresarial; e desenvolve considerações sobre a relação entre Sustentabilidade e Inovação, dois temas tão atuais e pertinentes. Leia o artigo na íntegra aqui.
Artigo_MBI3_Sustentabilidade e Inovação
Quais empresas podem desenvolver políticas de sustentabilidade?
Filed in sustentabilidade, 21/02/2010, 03:10Acredito que todas as empresas possam contribuir com compromisso ético e políticas de sustentabilidade para o desenvolvimento da sociedade. Mesmo empresas pequenas – que possam considerar-se limitadas para o desenvolvimento de ações deste tipo – podem contribuir muito. Nestes casos, acredito que o principal público a ser pensado são os seus profissionais. Por meio de políticas claras de seleção, contratação e desenvolvimento de carreiras, regidas pelo princípio da justiça, transparência e equidade, as empresas pequenas conseguem realizar um trabalho significativo no sentido de garantir para os trabalhadores não apenas o cumprimento de seus direitos trabalhistas – mesmo que em pleno século XXI isto ainda seja um desafio em vários setores da economia e em várias regiões brasileiras – mas também garantir dignidade, perspectiva real de crescimento e possibilidade de sonharem e assim, construírem uma qualidade de vida melhor para si e para suas famílias.
Empresas que não se comprometem com isto no mundo contemporâneo, estão fadadas a se estagnarem como “aquela que vende aquele produto” e a serem vistas com menos valor por uma geração que cresce respeitando o meio ambiente, a diversidade e tem a solidariedade e a tecnologia como sustentação. Além do sentimento de pertença que se cria entre os profissionais e que desempenha um papel fundamental nas organizações atuais: atrai capital humano de qualidade para a empresa, mobiliza profissionais e familiares em torno dos objetivos da empresa e traz visibilidade positiva e espontânea na mídia. E também no meio de comunicação mais eficiente que existe, o boca a boca, criando no imaginário coletivo uma imagem de empresa correta, responsável e que “faz mais do que sua obrigação”, contribuindo para o desenvolvimento sustentável no âmbito em que atua.
Mas é sempre bom lembrar que antes de mergulhar no desenvolvimento de políticas de sustentabilidade, os dirigentes e profissionais estratégicos de uma empresa devem se perguntar “Por que desejam tornar-se uma empresa sustentável?” (ou responsável, qualquer que seja o termo escolhido). Já começa daí o desafio maior: exercitar a transparência de dentro para fora da empresa, começando pelos “cabeças da organização”, que uma vez convertidos nesta filosofia de gestão e de vida, darão o tom e as cores com as quais a sustentabilidade será construída continuamente no interior das organizações e formará redes para fora dela, que ajudarão a abraçar a qualidade de vida em todos os seus sentidos e direções. Respondendo à pergunta do título, podem desenvolver políticas de sustentabilidade, as empresas que decidam fazê-lo de forma consciente, transparente e profunda, como deve ser feita toda transformação que pretenda ser real e para melhor.
Ser sustentável sempre foi uma necessidade. Todas as espécies sabem disso e convivem com o ambiente ao seu redor em perfeita harmonia, não tirando mais do que precisam ou do que a natureza é capaz de repor em tempo hábil. O desafio, no caso dos humanos, é que precisamos de mais do que outras espécies para nos mantermos vivos no planeta Terra: temos mais demandas, consumimos mais, logo produzimos mais resíduos e lixo que todas as outras espécies. Também concordo com você sobre a necessidade de profissionais capacitados para lidar com este assunto. E como é um tema chamado “transversal”, cada área do conhecimento tem sua contribuição para dar e muito que aprender também. Na minha área, que é a comunicação, acredito que um dos maiores desafios vem sendo não se tornar uma marionete ou uma mera ferramenta do pior tipo de marketing na mão de dirigentes e executivos que só vêm na sustentabilidade uma oportunidade de obter visibilidade e assim, o objetivo final: maiores lucros.
Muitas vezes, diante de ações pouco significativas, da falta de uma política bem construída, do desconhecimento, do desinteresse e de idéias mal fundamentadas sobre o que é ser sustentável, profissionais de comunicação são pressionados a transformar projetos vazios de sentido em uma grande campanha de comunicação que traga grande impacto na sociedade. Não adianta: o melhor profissional contratado na melhor agência para produzir o melhor vídeo, o melhor slogan, a melhor garota propaganda, a melhor campanha de marketing viral ou qualquer outra estratégia, não valem nada se não há conteúdo, se não há realidade por traz de palavras, imagens e sons bonitos. Por isto, antes de pensar em como divulgar o que está fazendo a empresa deve se preocupar em obter resultados.
Este artigo foi pubicado no Fórum de Debates da Catho, em partes, em fevereiro de 2010.
